Você realmente esqueceu... ou apenas parou de pensar nisso?
Algumas emoções têm uma característica curiosa: quanto mais tentamos expulsá-las da consciência, mais elas parecem encontrar outros caminhos para aparecer.
Johnny Machado, Amanda Carvalho
7/2/20264 min read
O que acontece quando tentamos não sentir?
Todos nós já tentamos não sentir alguma coisa.
Depois de uma perda, dizemos a nós mesmos que precisamos seguir em frente. Após uma discussão, repetimos que não vale a pena pensar mais nisso. Quando somos decepcionados, nos convencemos de que aquilo já passou.
Às vezes, funciona por um tempo.
Voltamos ao trabalho, cumprimos nossos compromissos, conversamos com amigos e seguimos a rotina como se nada tivesse acontecido.
Mas, em algum momento, aquela emoção parece encontrar um caminho de volta. Ela aparece na irritação com quem não tem relação com a história, no cansaço que não melhora com descanso, na dificuldade para dormir, na ansiedade sem motivo aparente ou naquela sensação persistente de que há algo fora do lugar.
Talvez isso aconteça porque sentir não é uma escolha. Podemos decidir o que fazer com nossas emoções, mas dificilmente conseguimos decidir simplesmente deixar de senti-las.
Aprendemos cedo que algumas emoções não são bem-vindas
Desde pequenos, recebemos mensagens, muitas vezes com a melhor das intenções, sobre quais sentimentos são aceitáveis e quais deveriam ser evitados.
"Não chora."
"Você precisa ser forte."
"Isso já passou."
"Não fica com raiva."
"Não liga para isso."
Pouco a pouco, vamos aprendendo que algumas emoções parecem inconvenientes. E, sem perceber, começamos a escondê-las dos outros e, às vezes, até de nós mesmos.
Com o tempo, essa estratégia pode parecer eficiente. Afinal, quem nunca tentou se manter ocupado para evitar pensar em algo doloroso?
O problema é que evitar uma emoção não é o mesmo que resolvê-la.
Reprimir não é esquecer
Existe uma diferença importante entre esquecer uma experiência e tentar afastá-la da consciência.
Na psicanálise, esse movimento recebeu o nome de recalque. Em termos simples, trata-se de um processo pelo qual determinadas experiências, desejos ou afetos deixam de ocupar o centro da nossa consciência, mas continuam produzindo efeitos na maneira como vivemos.
Isso não significa que toda emoção reprimida dará origem a um sintoma específico, nem que exista uma relação simples de causa e efeito. A vida psíquica é muito mais complexa do que isso.
O ponto central é outro: aquilo que não conseguimos reconhecer em nós nem sempre desaparece. Às vezes, apenas encontra outras formas de se manifestar.
As emoções costumam encontrar outros caminhos
Imagine tentar manter uma bola inflável debaixo d'água.
Enquanto você faz força, ela permanece submersa. Mas basta relaxar um pouco para que volte rapidamente à superfície.
Com as emoções, muitas vezes acontece algo parecido.
Uma tristeza pode aparecer como irritabilidade constante.
Uma raiva nunca reconhecida pode surgir em pequenas explosões aparentemente desproporcionais.
Um medo pode se transformar em necessidade de controlar tudo.
Uma perda não elaborada pode tornar difícil confiar novamente em alguém.
Isso não significa que exista uma explicação única para cada sofrimento. Seria simplificar demais a experiência humana.
Mas significa que nossas emoções costumam insistir em participar da nossa vida, mesmo quando fazemos o possível para ignorá-las.
Quando o corpo começa a falar
Nem sempre aquilo que sentimos aparece em forma de pensamento.
Às vezes, o corpo parece falar antes.
Insônia.
Tensão muscular.
Sensação constante de cansaço.
Dificuldade para relaxar.
Choro que surge sem explicação aparente.
É importante lembrar que sintomas físicos podem ter diversas causas e sempre merecem uma avaliação médica quando necessário. Ainda assim, sabemos que corpo e mente não funcionam separados.
Em muitos momentos, nosso sofrimento emocional também encontra maneiras de se expressar através do corpo.
Sentir não é perder o controle
Existe um medo bastante comum: o de que, ao entrar em contato com determinadas emoções, sejamos consumidos por elas.
Talvez por isso tantas pessoas prefiram manter-se ocupadas o tempo todo.
Mas reconhecer um sentimento não significa agir impulsivamente ou ficar preso a ele.
Há uma diferença entre sentir raiva e machucar alguém.
Entre reconhecer a tristeza e desistir da vida.
Entre admitir o medo e deixar de seguir em frente.
Quando uma emoção pode ser reconhecida, ela deixa de precisar aparecer apenas de maneiras indiretas.
A terapia não faz os sentimentos desaparecerem
Muitas pessoas procuram terapia esperando aprender a não sentir ansiedade, tristeza ou culpa.
Com o tempo, descobrem que o objetivo é outro.
A terapia não existe para eliminar emoções consideradas negativas. Elas fazem parte da experiência humana.
Ela oferece um espaço para compreender por que determinados sentimentos surgem, que lugar ocupam na nossa história e o que talvez estejam tentando comunicar.
Nem sempre encontramos respostas imediatas.
Mas, muitas vezes, aquilo que parecia apenas um sofrimento sem sentido começa a ganhar novas possibilidades de compreensão.
Talvez a pergunta não seja: "Como faço para parar de sentir?"
Vivemos em uma época que valoriza respostas rápidas.
Queremos superar logo, esquecer logo, seguir em frente logo.
Mas algumas experiências não obedecem ao relógio.
Talvez a questão não seja descobrir como eliminar certas emoções, mas entender por que elas precisaram permanecer em silêncio durante tanto tempo.
Nem tudo o que sentimos precisa ser resolvido imediatamente.
Às vezes, o primeiro passo é simplesmente permitir que exista.
E, quem sabe, descobrir que escutar aquilo que sentimos pode ser menos assustador do que passar a vida inteira tentando fazer com que desapareça.
Elaborar é diferente de esquecer
Elaborar uma experiência difícil significa poder pensar sobre ela, sentir o que ela provoca, dar-lhe um lugar na própria história. Não significa que a dor some, mas que ela deixa de comandar de forma silenciosa.
É justamente isso que um processo terapêutico oferece: um espaço para que o que foi "esquecido" possa, aos poucos, encontrar palavras.
Se algo voltou enquanto você lia esse texto...
Talvez não seja por acaso. Às vezes, o que insiste em aparecer está pedindo atenção, não para ser suprimido de novo, mas para ser escutado.
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